quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Olho do furacão

       Quando estamos no meio de uma calmaria, seja ela esperada ou não, porém com a certeza de um retorno a tempestade eminente e inevitável, talvez essa seja a personificação do sentir-se no olho de um furacão.
       Claro que uso isso com um tom metafórico, não só por não projetar nenhuma possibilidade estabelecida de enfrentar tais forças da natureza, mas também porque cada um em si enfrenta suas próprias tempestades todos os dias, e isso não é desconhecido por ninguém.
       De qualquer forma esse tema me veio hoje a cabeça, acho que justamente porque essa se parecer com uma alusão perfeita ao momento que vivo atualmente. Em reflexão sobre o assunto passei por diversos campos, mas nenhuma conclusão foi definitiva.
       No principio, em geral, as causas que nos levaram a tal intercurso pouco desejável são o primeiro objetivo na trilha da busca por respostas. No entanto são estas mesmas as mais difíceis compreensões que se pode procurar. Os caminhos que percorremos são sempre tão tortuosos que os aspectos, por vezes, considerados determinantes e objetivos para cada mudança de curso, na verdade podem ter sido apenas coadjuvantes no tramitar das emoções daqueles momentos singulares. A sua maneira o destino é construído por nós numa anarquia harmônica entre emoções e a razão.
       Superada a imatura insistência em atuar em causas, surge um segundo objetivo, de mirar as assertivas nos próximos desafios, nos reais objetivos. Talvez essa seja então uma nova armadilha, se analisada pelo aspecto puro e simples de que por poucas vezes os fins puderam por completo justificar os meios. Todavia, independentemente de ser traiçoeira, é na realidade a melhor oportunidade de desenvolver um plano de ação, passar as insatisfações do plano emocional para o plano concreto. Nesse estágio é possível se perder em devaneios sobre um novo mundo utopicamente perfeito que pode ser construído se cumprirmos pequenas e extensas promessas que se constroem como pontes entre nós e um paraíso resolutivo, cativante e cuidadosamente maquiado. E o fim desse estágio então se estabelece assim que a calmaria começa a se dissipar e os ventos da tempestade aos poucos fazem vibrar os alicerces das frágeis certezas empenhadas.
       Num último e enfadonho momento de relativa calma, vêm o nível final das ações mentais. Como num suspiro antes do mergulho a mente acelera e projeta então alvos de destruição, que serão novos campos livres após o fim da tempestade. Nessa pequena fração de tempo antes do retorno ao intenso revolver, enfim, fazemos nossas escolhas e com a ajuda da própria natureza derrubamos aquilo que não mais nos serve, sem perjúrios de preservação que nos atrapalham nos tempos calmos. Optamos portanto pelo que merece ser preservado, quando há a íntima certeza que não é possível manter mais que o essencial.
       Nos olhos dos nossos furacões temos a oportunidade de enfim mudar, de dentro pra fora. Seja pra nos adaptar, seja pra buscar novos objetivos, são as tempestades que nos impulsionam pra frente num caminho de evolução mental, espiritual, humana.
       Depois de desenvolver tudo isso em mente passei então a não desgostar mais dos tempos cinzentos e escuros, passei a vê-los como impulsos para se colorir a vida que por vezes caminha calma em tons de cinza pelas sombras das nossas próprias inseguranças.

sábado, 10 de maio de 2014

Nosso Tempo

Ás vezes simplesmente não dá...
Na dá pra esquecer, não dá pra superar, não dá pra dizer, não da pra esperar...
Esse é o efeito colateral dos fortes...
O amor-próprio nos premia com a força, na mesma medida que nos premia com certas características peculiares...

Viver é... Uma caixinha de surpresas, gratas e ingratas...
Uma via de mão dupla, com cuidados e decepções...
Mas... Tem horas que simplesmente não estamos abertos...

Ás vezes somos nós, ás vezes são os outros...
Mas o tempo passa... Ah sim... O Tempo!

O Tempo passa diferente pra cada um...
O Tempo é uma percepção da realidade...

Certa vez estava lendo estudos científicos que falavam sobre cérebro, memórias e rotina. Em último resumo dizia que o cérebro se satisfaz com a rotina, porque a rotina lhe é confortável. Isso deriva do fato de que algo que fazemos repetidamente passa a funcionar num piloto automático que poupa o cérebro de pensar. Neste mesmo texto o conselho em última instância era... Marque a sua vida com eventos especiais para que seu cérebro seja obrigado a sair do confortável piloto automático. São estes momentos que fazem o tempo parar.

 Voltemos então ao tempo...

 Como cada um tem seu tempo, seus eventos especiais, seu piloto automático... Cada um registra o seu tempo... Mas e aí vêm aqueles detalhes... As relações interpessoais!

 Com as perspectivas de amor romântico a sociedade tende a criar protocolos que geram esses eventos, e eles demarcam o tempo do casal em aniversários, viagens, nascimentos, batizados, bodas... Com os amigos todos são co-responsáveis.

Mais aí misturado com toda essa coisa orgânica vêm os sentimentos... E vêm as personalidades... E aí... De que vale esse tempo todo?!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Adaptação

       A lei da natureza é clara: Adapte-se para sobreviver. Ir contra as prerrogativas da natureza não é só perigoso, é também leviano. É preciso ter leitura de futuro. É preciso se saber o que se quer. E feliz ou infelizmente nunca conheci melhores na arte da adaptação que os geminianos.

       Ser geminiano é ser taxado. Quando não é duas caras é mentiroso mesmo. Porque os céticos ainda dirão que omitir é pior que mentir. E por aí segue, mas na verdade é tudo proveniente da arte de se adaptar, da qual somos ainda hoje bons mestres.

       É muito fácil julgar. Julgamos o tempo todo. Consciente e inconscientemente. É inato. Faz parte do instinto de auto-proteção. No entanto, a capacidade de aumentar a acurácia dos julgamentos nos momentos críticos e definir quando isso deve se transformar numa mudança de postura... Isso sim é se adaptar.

       O mundo se modifica numa velocidade cada vez maior. Tabús tem caído e novas diretrizes tem se formado. As formas de se relacionar se tornaram diversas, tão complexas e tão volúveis que os padrões tornaram-se uma meta inalcançável. É neste momento que é preciso se adaptar para buscar o que se precisa, o que se quer desta vida.

        Mantendo as diretrizes de evolução não há espaço para imprecisões. É preciso no mínimo estar consciente dos riscos que se está correndo ao optar por manter-se rígido nas posturas ao longo do tempo. As pequenas lições derivadas das pequenas falhas, transmitem o aprendizado necessário para a antecipação das grandes falhas... E é nesse ponto que há cada vez menos espaço para sentimentos desmedidos.

        Vive-se pra sentir. As emoções são as responsáveis pela manutenção do entusiasmo, pelo prazer de se permanecer vivo, mas viver de emoção pode causar um vazio rebote, uma sensação e uma relação, de dependência, patológicas. É preciso agir com responsabilidade com relação a si mesmo. Buscas utópicas e perdas de controle emocional serão cobradas de forma definitiva e implacável.

        O que se pode esperar desse tempo é política de prevenção de danos. Se não é possível ampliar isso pro mundo é no mínimo essencial fazer isso por si mesmo. Nós geminianos estamos fazendo isso dia-a-dia e nem assim estamos livres das intempéries do destino. Adaptar-se é um ato diário e contínuo. Não coloque sobre mundo ou sobre qualquer um a responsabilidade que é sua, sob a pena de se transformar numa alma que crucifica o mundo em prol de sua auto-indulgência. Quem não se adapta é engolido rapidamente e pode pagar um preço alto demais.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sobre amor e orgulho


       Escrever pra um geminiano é como falar... Ou melhor, se ainda que possível, é melhor que falar. Isso porque escrever permite a correção antes do envio da mensagem, a correção das falhas de discurso, a tentativa da expressão perfeita do pensamento. Nada pode ser mais geminiano que escrever.

       Minha história de vida é singular, como todas. Não há muito mais oculto sobre o véu da ignorância ou mesmo sob o medo do julgamento. Errei e muito, mas cresci e também não foi pouco. Amadureci vendo as coisas darem errado e perdi guerras em assuntos que sempre tive condições de vencer. Mas assim é pra todos. Não sou privilegiado ou um mártir. Acho que talvez tenha sido apenas precoce.

       Não sou uma pessoa de relacionamentos típicos, de sentimentos típicos, de comportamentos típicos. Costumo me sentir sempre um pouco a quem do comum e/ou da frondosa normalidade social, mas isso nem me incomoda mais. Nessas relações incomuns aprendi que mais importante que ser previsível é ser estável. Procurei oferecer para cada uma das relações o melhor de mim que eu pudesse dar, e modéstia a parte deu certo.

       Sou uma pessoa egocêntrica, auto-suficiente, auto-indulgente e de auto-estima elevada, combinação suficientemente bombástica pra ser orgulhoso, mas milagrosamente e racionalmente nunca me tornei um real orgulhoso. Talvez isso não tenha acontecido por eu ter assistido a inúmeras cenas destrutivas derivadas do orgulho.

       Por não ser prisioneiro do orgulho perdi as contas de quantas relações eu resgatei, restaurei e preservei. E me sinto hoje infinitamente mais feliz por isso. Mas pra isso tive que pedir desculpas com certeza que não estava errado. Tive que admitir erros nos momento de maior fragilidade. Tive que ouvir ofensas e acreditar que elas eram somente propagação da raiva. Tive que engolir palavras, tive que gritar sozinho à noite, tive que perseverar. Mas com o tempo fica mais fácil. Posso dizer por experiência própria. É possível se destruir em minutos relações que foram construídas em anos e isso nunca acrescenta nada a ninguém, pelo contrário, deprime.

       Parte tão importante e não mais fácil é diminuir o orgulho frente a nós mesmos. É aceitar que como seres humanos imperfeitos, precisamos nos aperfeiçoar. O primeiro passo pra isso é se conhecer. É preciso observar nossos defeitos com tom crítico e tentar se não mudá-los a menos amortizá-los. Não é possível e nem louvável chegar ao fim da vida da mesma forma que iniciamos a adolescência. É preciso aceitar críticas se autocriticar. É preciso ver no que estamos falhando repetidas vezes. É preciso parar de se perdoar e passar a se mover pra evolução. Nada disso é fácil, mas é extremamente gratificante. O que não for natural será aprendido pela persistência, pela repetição. Evitar problemas será sempre melhor e mais benéfico que ter de resolvê-los repetidas vezes.

       Uma relação é bilateral, mas também é unilateral, é um produto das duas coisas. Ela é construída a partir do que cada um sente, expressa e diz. O crescimento pessoal é responsável pelo crescimento da relação, mas não sozinho. É preciso amadurecer como indivíduo pra preservar as relações, pra fazê-las durar. É preciso muita tolerância, muita paciência. Mas também é preciso cuidar. Quando há um comprometimento unilateral a relação também não sobrevive. O amor sozinho não sustenta o bombardeio de problemas. As afinidades, o companheirismo, o incentivo, o carinho, o apoio, a compaixão, a solidariedade... Isso sustenta as relações. Sejam elas de amor ou de amizade. É preciso se perguntar o quanto disso tenho dado e recebido pra se chegar a qualquer conclusão sobre o futuro de uma relação.

       Hoje em dia é tudo descartável. Ás pessoas gostam de viver relações novas onde a superficialidade aproxima da utopia. Nas quais não há comprometimento, há apenas compartilhamento de prazeres efêmeros. Onde não há confiança, mas há indiferença. Manter relacionamentos de longo prazo é cada vez mais difícil. A cultura que nos é passada vai contra todo e qualquer ato de sacrifício. O ego anda valorizado demais e com ele cresce o orgulho. É preciso saber o que se deseja construir para si pros próximos 10 anos, porque estamos plantando hoje o que iremos colher lá. Uma coisa é certa: Não há glória sem sacrifício.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Felicidade como opção


Sabe aqueles dias que acordamos, nos olhamos no espelho e constatamos: Não tenho nada a reclamar. Acho que esse dia foi hoje. Apesar disso é claro que essa colocação é muito simplória, é muito geral. Ter esses insights me leva a um amplo processo de reflexão.

Quando escrevo em geral é porque me vêm inspiração, ou vontade, ou ambos. Acho que os melhores textos vêm quando há muito dos dois. Refletir sobre o que nos faz feliz, o que nos incomoda, o que nos falta... É um exercício inconsciente e diário e por isso talvez seja tão raro vem esse tipo de frase se superficializar desta forma, provavelmente porque estamos muito preocupados em viver sem o devido tempo de planejar o hoje de forma objetiva.

Avaliando sob o aspecto da satisfação pessoal, os nossos sonhos são em geral o nosso objetivo final. No entanto a felicidade que pode ser retirada de cada meta, de cada degrau galgado, na busca desse objetivo, pode ser uma boa lição de como ser feliz no caminho e não apenas no fim. Porque a vida se faz no caminho!

É importante pensar sobre si. Sobre seus defeitos e qualidades. Sobre causa e conseqüência. Mas é extremamente importante. Rever seus conceitos, decifrar seus mecanismos, pode ser a chave pra ser mais feliz a cada dia. É preciso resolver os conflitos internos, é preciso trabalhar os defeitos.

Por diversas vezes nos visualizamos em ciclos de desentendimentos sucessivos e constantes derivados da nossa personalidade, que por vezes são um produto demasiadamente ácido de nós mesmos. É neste ponto que é preciso se entender. Tanto pra ser auto-indulgente, quanto pra trabalhar a mudança. Relação nenhuma resiste há inflexibilidade ampla e contínua. Diminuir os atritos, se adaptar, é a solução pra diminuir as frustrações e desgastes do humor no dia a dia.

Além disso, é importante ajustar a sua felicidade. O amor próprio é essencial. Cada vitória deve ser valorizada, e porque não, comemorada. Seja ela no mundo material ou no mundo sentimental. Conquistar um desejo antigo, ter uma noite de prazer, rever pessoas depois de longos afastamentos, comer o seu prato preferido, comprar algo após uma economia... É isso que faz o caminho ser feliz. O ajuste não está em reduzir os sonhos, mas em entender que muitos deles são construídos peça a peça, no dia a dia, e que esperar pelo dia que o quebra-cabeças estará montado poderá fazer com que grande parte do prazer se perca.

Por fim, é preciso auto-reflexão, é preciso disposição. Ir simplesmente vivendo faz com que se perca a possibilidade de opção. Não traçar metas viáveis, não se respeitar, não cuidar de si... Pode minar o amor próprio. E quando perdemos nosso amor próprio... Perdemos a auto-estima e todo nosso mundo que é construído sobre ela.