Quando estamos no meio de uma calmaria, seja ela esperada ou não, porém com a certeza de um retorno a tempestade eminente e inevitável, talvez essa seja a personificação do sentir-se no olho de um furacão.
Claro que uso isso com um tom metafórico, não só por não projetar nenhuma possibilidade estabelecida de enfrentar tais forças da natureza, mas também porque cada um em si enfrenta suas próprias tempestades todos os dias, e isso não é desconhecido por ninguém.
De qualquer forma esse tema me veio hoje a cabeça, acho que justamente porque essa se parecer com uma alusão perfeita ao momento que vivo atualmente. Em reflexão sobre o assunto passei por diversos campos, mas nenhuma conclusão foi definitiva.
No principio, em geral, as causas que nos levaram a tal intercurso pouco desejável são o primeiro objetivo na trilha da busca por respostas. No entanto são estas mesmas as mais difíceis compreensões que se pode procurar. Os caminhos que percorremos são sempre tão tortuosos que os aspectos, por vezes, considerados determinantes e objetivos para cada mudança de curso, na verdade podem ter sido apenas coadjuvantes no tramitar das emoções daqueles momentos singulares. A sua maneira o destino é construído por nós numa anarquia harmônica entre emoções e a razão.
Superada a imatura insistência em atuar em causas, surge um segundo objetivo, de mirar as assertivas nos próximos desafios, nos reais objetivos. Talvez essa seja então uma nova armadilha, se analisada pelo aspecto puro e simples de que por poucas vezes os fins puderam por completo justificar os meios. Todavia, independentemente de ser traiçoeira, é na realidade a melhor oportunidade de desenvolver um plano de ação, passar as insatisfações do plano emocional para o plano concreto. Nesse estágio é possível se perder em devaneios sobre um novo mundo utopicamente perfeito que pode ser construído se cumprirmos pequenas e extensas promessas que se constroem como pontes entre nós e um paraíso resolutivo, cativante e cuidadosamente maquiado. E o fim desse estágio então se estabelece assim que a calmaria começa a se dissipar e os ventos da tempestade aos poucos fazem vibrar os alicerces das frágeis certezas empenhadas.
Num último e enfadonho momento de relativa calma, vêm o nível final das ações mentais. Como num suspiro antes do mergulho a mente acelera e projeta então alvos de destruição, que serão novos campos livres após o fim da tempestade. Nessa pequena fração de tempo antes do retorno ao intenso revolver, enfim, fazemos nossas escolhas e com a ajuda da própria natureza derrubamos aquilo que não mais nos serve, sem perjúrios de preservação que nos atrapalham nos tempos calmos. Optamos portanto pelo que merece ser preservado, quando há a íntima certeza que não é possível manter mais que o essencial.
Nos olhos dos nossos furacões temos a oportunidade de enfim mudar, de dentro pra fora. Seja pra nos adaptar, seja pra buscar novos objetivos, são as tempestades que nos impulsionam pra frente num caminho de evolução mental, espiritual, humana.
Depois de desenvolver tudo isso em mente passei então a não desgostar mais dos tempos cinzentos e escuros, passei a vê-los como impulsos para se colorir a vida que por vezes caminha calma em tons de cinza pelas sombras das nossas próprias inseguranças.