É quase desesperador... É uma mistura de medo, insegurança e
impotência... É como se tudo que existiu fosse sugado por um vórtex... Assim
ocorre quando nos damos conta que abismos foram formados entre nós e algo que
amamos.
Abismos podem se formar instantaneamente, com poucas frases,
ou serem construídos dia a dia em críticas silenciosas, em segredos
atormentadores, em falhas humanas.
Quando somos afastados de algo que queremos perto de nós, ou
talvez apenas quando percebemos que isso ocorreu, resta a nós responder a
altura. Quase nada na vida é gratuito. O destino pode promover encontros incríveis,
noites maravilhosas, prazeres inesquecíveis, mas o responsável por fazer isso
na vida, no cotidiano, é cada um.
Diante dos nossos abismos precisamos construir pontes, mas
as pontes precisam se fixar, elas precisam de comprometimento, mútuo, pra se
formar, elas precisam de abnegação. Não é fácil restabelecer confiança,
intimidade, cumplicidade.
Apenas quando se percebe que é preciso que nos apaixonemos
pela nossa história de vida, e pelas nossas conquistas, e pelos nossos amores,
todos os dias, é que entendemos que construir pontes é um processo diário. A
cada dia nós mudamos num duplo processo, de dentro pra fora e de fora pra
dentro. Criamos distâncias inevitáveis a cada ato, a cada experiência, somos
seres em transformação constante.
No mundo de hoje a política é descartar, é surfar no vale
dos abismos e aproveitar a paisagem, seja ela qual for, e viver na ilusão que
se têm o controle quando na realidade se possui apenas a comodidade da inércia.
Trocam-se os amigos, trocam-se os namorados, trocam-se os empregos, as profissões,
trocam-se os domicílios, trocam-se os prazeres, numa busca inútil de prazer da
novidade.
No meio disso tudo o que é genuíno é perdido. O prazer de se
comprometer e saber que há pessoas comprometidas com você. Que não estamos sós
e que é possível enumerar inúmeros motivos e pessoas pra se estar feliz todos
os dias. É isso que permite se chegar a maturidade na certeza de construímos as
nossas pontes indestrutíveis e que não há motivo pra haver abismos entre a
imagem que vemos no espelho e a que vive sobre a nossa alma todos os dias.
Eu tento, do meu jeito, fortalecer a cada dia as minhas
pontes e evitar que os abismos levem meus amores pra longe de mim. Sei que não
poderei manter tudo pra sempre, mas guardo a paz da certeza que sou o ator
principal de cada ato na minha vida e não apenas um figurante que observa as
cortinas abrirem e fecharem.
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